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Entrevista. Mirian Goldenberg fala sobre o tema de sua palestra no Evento Feminino

Pesquisadora do comportamento humano, a antropóloga Mirian Goldenberg será a grande atração do Evento Feminino da Super Feira Acaps, patrocinado pela Rádio Band News FM ES.

Mirian, que é Doutora em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem uma coluna no jornal Folha de São Paulo desde 2010, onde traz diversos assuntos relacionados ao comportamento humano, inclusive do universo feminino.

A Acaps trouxe uma entrevista exclusiva com a palestrante na edição 15 de seu Jornal, que pode ser conferida abaixo.

O Evento Feminino está marcado para o dia 18 de setembro, às 18 horas, e é aberto às visitantes e expositoras da Super Feira Acaps, sendo a participação condicionada à lotação do auditório.

Entrevista:

 

JORNAL ACAPS: Qual seria a definição de uma "bela velhice"?

MIRIAN: Eu mostro no livro “A bela velhice” que existe a possibilidade de se envelhecer com mais liberdade e mais felicidade. Como dizem as minhas pesquisadas de mais de 60 anos, pode-se aproveitar essa fase da vida para ser você mesma, sem medo dos estereótipos, das rotulações e dos preconceitos que cercam o envelhecimento. A velhice é bela, não quando você tenta congelar o seu corpo e o seu rosto na juventude, mas quando você saboreia esse momento da vida, que para as minhas pesquisadas, principalmente para as mulheres ( por isso eu falo “pesquisadas”) é o melhor momento de toda a vida. É a primeira vez que elas se sentem realmente livres, é o momento em que ela se sentem mais felizes. Então bela velhice é você ter uma saúde boa, ter condição financeira para bancar os seus desejos e principalmente, o que meus belos velhos mais valorizam, independência. E também e se sentir com apoio e segurança, os meus pesquisados falam que a amizade é fundamental nessa fase da vida. Bela velhice é a possibilidade de viver esse momento da vida que é cada vez mais longo de uma forma mais livre e muito mais feliz.

JORNAL ACAPS: O que mudou ao compararmos o envelhecer nos dias de hoje com o envelhecer na época dos nossos avós, por exemplo?

MIRIAN: A principal mudança é que quem está com 60,70,80 anos hoje, foi parte da mesma geração que fez a revolução comportamental no século passado, nos anos 60, são pessoas que quebraram  tabus, quebraram preconceitos relacionados ao corpo, ao sexo, ao casamento, ao amor, ao trabalho. Essa geração envelheceu e essa geração ( que eu gosto de chamar de “ageless – sem idade”) continua com projetos, continua namorando, dançando, cantando, trabalhando, viajando. É uma geração que não se limita em função de um rótulo, uma etiqueta. Então a grande diferença é que essa geração está inventando uma nova forma de envelhecer, assim como inventou uma nova forma de ser jovem no século passado.  

JORNAL ACAPS: Como as mulheres têm encarado o envelhecimento nos dias de hoje? Para elas, há um peso maior do que para os homens?

MIRIAN: Minhas pesquisas mostram que o corpo no Brasil, principalmente o das mulheres, é considerado como um verdadeiro capital. E não é um corpo qualquer, é o corpo jovem, magro e bonito. Então em uma cultura que valoriza extremamente o corpo, a juventude e a sensualidade, para as mulheres envelhecer pode ser um momento de perda desse corpo capital. Por isso, elas sofrem muito em relação às questões da aparência e investem tanto no consumo de produtos para rejuvenescer. As brasileiras são as maiores consumidoras do mundo em cirurgia plástica, Botox, preenchimento, tintura pra cabelo, remédio para emagrecer, moderador de apetite. Já os homens falam mais de medos relacionados à aposentadoria, à impotência e à dependência, eles têm muito medo de se tornarem dependentes. Por outro lado, apesar das mulheres sofrerem muito com a pressão estética, elas descobrem na velhice, um momento de muito mais liberdade, elas ligam, e são elas que dizem, aquele botãozinho do fo**-se e passam a se preocupar menos com as opiniões, os preconceitos e os estigmas relacionamos ao envelhecimento. Então se é um momento de perda da aparência, é também um momento de uma grande conquista, de liberdade maior para ser você mesma.

JORNAL ACAPS: Uma informação curiosa de suas pesquisas é a inveja que as mulheres têm da liberdade masculina. Por que elas têm dificuldade de envelhecer com liberdade? Já tivemos avanço desde que você começou a pesquisar o assunto?

MIRIAN: Quando eu pergunto às mulheres o que elas mais invejam, elas invejam a liberdade masculina. Só com maturidade, só mais velhas, elas conquistam essa liberdade. Então se elas invejam quando são mais jovens, elas deixam de invejar por que elas conquistam essa liberdade, inclusive a liberdade de rir e de brincar mais e principalmente de rir delas mesmas e de serem mais leves, livres e felizes.

JORNAL ACAPS: O que ainda precisa mudar no olhar e no comportamento da sociedade como um todo em relação às pessoas com mais de 60 anos, principalmente as mulheres?

MIRIAN: Eu tenho feito muitas pesquisas, já são 30 anos de pesquisas com homens e mulheres e há 15 anos eu me dedico inteiramente a pesquisar o envelhecimento, e nos últimos 5 anos eu tenho pesquisado aqueles que têm mais de 90 anos. Hoje as pessoas podem envelhecer com mais independência, liberdade e felicidade, isso sem esquecer todas as misérias e todos os problemas que cercam o envelhecimento no Brasil, em termos de saúde, de políticas públicas, de aposentadoria e até de violência contra os idosos, que é gravíssima no Brasil. No entanto, eu preferi focalizar a possibilidade de envelhecer com beleza, independência, saúde e dignidade, todos os meus livros têm tratado desse tema. Então, eu acho que a grande mudança é essa possibilidade de ter uma bela velhice. Agora quer dizer que a situação geral do pais melhorou? Não, não melhorou quase nada, são as pessoas que estão envelhecendo que estão cuidando mais de si, recebendo mais apoio dos amigos e familiares e lutando mais para serem independentes, e para terem dinheiro suficiente para cuidarem da própria saúde e enfrentarem essa violência cotidiana. Espero que o meu trabalho contribua um pouco para tudo que ainda precisa ser feito para que as pessoas possam, não só envelhecer, mas viver com mais dignidade, felicidade e liberdade.

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Publicado em 08/08/2019
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